Por onde anda Emmanuel Cavalcante, o Cavaca, um contador de histórias?

Emmanuel Cavalcante – O Cavaca

Por Jota Junior

Faz uns 3 anos que tive o prazer de entrevistá-lo nas dependências do Centro Técnico Audiovisual – CTAv. Na ocasião, numa conversa de em torno de 2 horas, momento em que ele também finalizava o seu filme: Edvaldo Gato – Artista Plástico da Bahia, visitamos algumas das dependências do Centro, entre elas: a sala de animação, a sala de trucagens, e terminamos a conversa no estúdio de mixagem. Cavaca de forma bastante eufórica e entusiástica falava de tudo, mas principalmente de cinema, de política, de cultura de um modo geral e do Brasil.

Dono de um invejável currículo de prestação de serviços a nação, através de suas muitas facetas, é difícil entender porque o Brasil não o homenageia como ele merece.

Veja a síntese da conversa e tire suas próprias conclusões!

Haja Fôlego!

Emmanuel Cavalcante, mais conhecido como Cavaca, aos 72 anos de idade e 42 de profissão, já perdeu as contas em quantos filmes atuou. Conta com orgulho suas atuações em Bye Bye Brasil (1979), Quilombo (1984), ambos dirigidos por Cacá Diegues; Amuleto de Ogum (1974), Tenda dos Milagres (1977), do diretor Nelson Pereira dos Santos; Terra em Transe (1967), O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha, entre muitas outras atuações, em filmes de curtas, médias e longas metragens que participou, seja como ator, diretor, assistente, roteirista, etc. Atuou no teatro na época das grandes companhias. Como compositor foi parceiro de Alceu Valença no Romance da Moreninha, escreveu livros, fez poesias, e ainda quer fazer muito mais!

“Um contador de histórias”

O animado Cavaca fala de sua atuação no cinema, no teatro, na música, na literatura, que no fundo são veículos de se contar histórias. Ele se acha um verdadeiro contador de histórias, um homem de conversa, que sabe incorporar um personagem, contar, narrar. Do apelido Cavaca, diz: “Ah! Isto aconteceu, quando eu comecei a filmar muitos documentários lá na Bahia, e surgiu isso da Turma do Siri, o Agnaldo Azevedo, onde tinha o Gato, o Ângelo, o Waguinho, o Jeová de Carvalho, falecido Pastore. Na Bahia ninguém sai imune de um apelido”, assegura.

O emociona falar sobre ter trabalhado com Glauber Rocha, que segundo ele é um dos nossos cineastas de reconhecimento internacional, que estaria fazendo setenta e um anos agora. “Primeiro foi Terra em Transe, que pra mim é um dos maiores filmes da história do cinema brasileiro. Terra em Transe é o maior filme político, é uma avaliação do pensamento político dentro da linguagem do cinema. É o maior de todos. É uma pulsação emocional e filosófica sobre o que o povo brasileiro vem passando desde o início da implantação civilizatória”, diz.

“O Dragão da Maldade é o pulo do gato de Glauber Rocha. Glauber fez Deus e o Diabo na Terra do Sol que foi o maior sucesso do cinema brasileiro no mundo. É o filme mais conhecido mundialmente de todo cinema realizado aqui na América do Sul, no Brasil”, afirma. “Glauber trouxe o Antonio das Mortes para uma nova leitura dentro do pensamento político. Ele mudou por completo no Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, a forma de narrar. Ele utilizou o teatro popular, o candomblé, e acima de tudo a dança negra. O filme é um sincretismo completo”, afirma.

A fotografia no cinema.

Com relação á fotografia no cinema, cita o renomado ator e cineasta Zózimo Bulbul, que por diversas oportunidades, disse que o cinema mundial não conseguiu evoluir a questão da luz na fotografia, principalmente para o ator negro. “A questão do confronto da sombra com uma luz mais intensa dá sempre um problema muito pouco resolvido. Nos estúdios americanos os atores negros, os galãs negros são muito bem trabalhados e há o equilíbrio de luz para você nivelar a luz com a sombra. O Zózimo está coberto de razão”, afirma. “Eu filmei com o Zózimo vários filmes, e o Zózimo ficava revoltado”, assegura. “Mas o fotógrafo vai me deixar aqui invisível?”, perguntava.

“Então, o José Medeiros fazia a medição da luz em torno do negro, que é o correto, a luz batia no negro, não estourava lá no fundo e ficava muito bonito. Se você parte da sombra para a luz, tem que valorizar a sombra. Este achado foi feito aqui no Brasil por Hélio Silva. O Edgard Brasil também começou a fazer isto, mas quem depurou isto de uma forma gigantesca, que chegou á linguagem perfeita foi o Zé Medeiros” explica.

O audiovisual e o cinema digital.

Em sua larga vivência no cinema, da película ao digital, Cavaca vivenciou o processo e com a autoridade da vivência, constata: “o campo é difícil de ser equacionado por causa das compreensões. O resultado da película é inigualável. Mas a necessidade tecnológica, o avanço, foi um grande benefício. Eu que fui um homem do celulóide, fui convencido que a tecnologia está se aproximando dos resultados do celulóide, mas não chegamos a isso ainda, é difícil, é uma transição, como foi do cinema mudo para o cinema sonoro, do preto e branco para o colorido… São processos que vão se aperfeiçoando. Então, a tecnologia não é um resultado imediato, é um processo constante”, defende.

Edvaldo Gato – Artista Plástico da Bahia

“Estou bastante esperançoso com relação ao meu novo filme: Edvaldo Gato – Artista Plástico da Bahia. É um filme experimental, maravilhoso. Gato é um dos maiores artista plástico do nosso povo, é xilógrafo, ilustrador de livros, é carnavalesco, é tapeceiro, é um homem de sete instrumentos na arte. Então, o filme é abrangencial sobre a alma de um artista até onde ela pode se estender”, argumenta.

É uma vergonha!

Refletindo sobre a cultura no Brasil, Cavaca é enfático, e afirma ser uma vergonha o tratamento dado á Cultura e o orçamento pífio do Ministério.

“É preocupante e vergonhoso, a Cultura no Brasil: as autoridades, os mandatários viraram as costas para a cultura do povo brasileiro. Nossas necessidades culturais são muito grandes: feijão, arroz, carne, frango, sapato, roupa e instrução, tudo é necessário, e a cultura é um complemento dessa alimentação orgânica, é a necessidade da alimentação espiritual e intelectual. Como é que um Ministério de Cultura vive á deriva? Como é que o Ministério da Cultura só tem direito a 1% do PIB? Isso é um crime, porque é a demonstração de que os Governos, todos os governos implantados no Brasil, não têm qualquer interesse pelo grande veiculo cultural. Ninguém sabe, mas eu desconfio que isto seja um projeto político externo para fazer com que o povo brasileiro não tenha uma subida muito grande na sua própria expressão. Nós somos um mercado ocupado culturalmente, mais do que nunca a lixeira mundial é despejada aqui, sem que nós tenhamos recursos para contrabalançar isto, fazer uma competição por igual” argumenta.

“Está faltando conscientização”

“Eu considero este momento muito triste, por que foi feita a desmobilização. Pra gente redemocratizar o país nós trabalhamos imensamente a conscientização. A população brasileira foi mobilizada para um projeto democrático, havia todo um programa do que ia ser esta democratização em todo território nacional, e as discussões nos sindicatos, nas próprias casas, nas repartições. A sociedade brasileira tomou conhecimento que devia participar de um novo momento para as suas vidas. Ai o que aconteceu? Vitoriosa a questão, veio um desmonte, devagar, muito malandro, muito safado. Fosse naquela época onde havia uma mobilização, um interesse coletivo, teria milhões de pessoas nas ruas do Brasil, exigindo uma tomada de posição. Mesma coisa que se faltasse feijão no supermercado e arroz, todo mundo ia dizer quero comer, quero comer, quero comer, e alguém ia ter que plantar e trazer comida” conclui.

 A entrevista foi realizada em março de 2009.

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