BONITINHA, MAS ORDINÁRIA ESTRÉIA NO CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL

BONITINHA, MAS ORDINÁRIA

Bonitinha, mas odinária

Bonitinha, mas odinária

NO CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL.

A encenação utiliza filmes de animação para destacar a poesia do texto de Nelson Rodrigues

Após encenar “Valsa nº6”, com uma boneca no papel título, a Cia Teatro Portátil estreia um novo espetáculo. “Bonitinha, mas Ordinária”, nasceu do desejo da companhia de dar continuidade à pesquisa sobre a dramaturgia de Nelson Rodrigues. Com direção de Alexandre Boccanera, a peça estará em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, a partir de 21 de janeiro até 1º de março, de quarta a domingo às 19h30.

“Bonitinha, mas Ordinária”, escrita em 1962, é uma reflexão obsessiva sobre a condição humana e as possibilidades do homem de mudar a realidade e transformar sua história.  A partir de um enredo folhetinesco, acompanhamos a trajetória de Edgard (Guilherme Miranda), um ex-contínuo que recebe uma proposta irrecusável de subir na vida, casando-se com Maria Cecília (Julia Schaeffer), filha do seu patrão, o Dr. Werneck (Marcello Escorel). Ele precisará revisar suas convicções, já que é apaixonado por Ritinha (Elisa Pinheiro), sua vizinha, uma menina pobre que faz de tudo para sustentar a mãe e as irmãs mais novas. Atormentado pela frase “o mineiro só é solidário no câncer”, atribuída na peça ao escritor Otto Lara Resende, Edgard confronta sua ambição com seus princípios éticos.

A pesquisa sobre a linguagem da animação, que permeia a trajetória da Cia Teatro Portátil, estará presente em filmes e ilustrações que apoiam a narrativa e ressaltam a poesia do texto. “Buscamos valorizar a essência poética da palavra de Nelson. Nosso maior interesse é estabelecer uma comunicação direta com os espectadores permitindo que o público perceba como esse grande autor brasileiro permanece vivo e sua fala dialoga com a atualidade”, destaca o diretor Alexandre Boccanera.

Os filmes de animação foram criados especialmente para o espetáculo por uma dupla de animadores paulistas, atualmente radicada no Canadá, Beatriz Carvalho e Diogo Nii Cavalcanti, parceiros da companhia desde a montagem de “Valsa nº6”.

Neste novo projeto, contemplado com o Programa de Fomento à Cultura Carioca da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, a Cia Teatro Portátil celebra dez anos de existência, abrindo espaço para artistas convidados, trocando experiências e renovando seu olhar sobre o fazer teatral.

 

COMPANHIA TEATRO PORTÁTIL

Há dez anos, sediada na cidade do Rio de Janeiro, a Cia Teatro Portátil desenvolve uma pesquisa continuada sobre o teatro de animação e a cena contemporânea. Um trabalho de reflexão e experimentação que busca misturar diferentes linguagens. Com o material dessa pesquisa, criou os espetáculos “2 Números”, “As Coisas” e “Valsa N°6” e se apresentou em mais de 50 cidades no Brasil e no exterior, alcançando uma plateia de aproximadamente 100.000 espectadores.

“2 Números”, montado com apoio do Programa de Bolsas Vitae de Artes, estreou em 2005 e desde então foi apresentado no 13° Festival Internacional do Mindelo – Cabo Verde em 2005, na 7° Mostra Cariri das Artes promovida pelo Sesc Ceará em 2005, no 3° Intercâmbio de Linguagens realizado no Rio de Janeiro em 2005, no 13° Porto Alegre em Cena em 2006, no 6° Festival de Formas Animadas de Jaraguá do Sul/SC em 2006, no 1° Seminário de Estudos sobre Teatro de Animação realizado em Rio do Sul/SC em 2006, na 6°Mostra Sesc/CBTIJ de Teatro promovida pelo Sesc Rio de Janeiro em 2006, no 16° Festival Espetacular de Bonecos de Curitiba promovido pelo Teatro Guaíra em 2007, no 20° Festival del Sur / Ilhas Canárias – Espanha em 2007, no 9° Festival Internacional de Bonecos de Belo Horizonte em 2008, no 2° FITA Floripa– Festival Internacional de Teatro de Animação de Florianópolis/SC em 2009, na 9° Mostra Sesi de Teatro de Bonecos e Formas Animadas promovida pelo Sesi SP em 2009, no 13º Festival Internacional de Títeres de Santiago de Compostela – Espanha em 2008, no FIT – Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto em 2009 e na Mostra Sesc de Animação/SP em 2011. O espetáculo esteve em cartaz no Teatro de Arena da Caixa Cultural do Rio de Janeiro em 2008, no SESC Avenida Paulista em 2009, no Teatro da Caixa Cultural de Curitiba em 2010, no Sesc Santo Amaro/SP em 2011 e no Teatro Fashion Mall/RJ em 2014.

“As Coisas”, produzido com patrocínio do Banco do Brasil, estreou em abril de 2010 e esteve em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília e Rio de Janeiro. Em 2011, o espetáculo integrou a programação do 5º FITA Floripa – Festival Internacional de Teatro de Animação de Florianópolis/SC. Em 2012, foi contemplado com o FATE – Fundo de Apoio ao Teatro da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e reestreou no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro. Em 2013, integrou a programação da Mostra Sesc de Teatro de Animação/SP e esteve em cartaz no Teatro Fashion Mall/RJ. Em 2014, esteve em cartaz no Teatro do Leblon/RJ e no Imperator – Centro Cultural João Nogueira/RJ.

“Valsa N°6” montagem contemplada com o FATE – Fundo de Apoio ao Teatro, da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro estreou em 2012, no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro. Em janeiro de 2013, esteve em cartaz no Teatro de Arena da Caixa Cultural do Rio de Janeiro. Foi selecionado pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura 2013/2014 e contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2013 para circular por diversos estados brasileiros.

A Cia Teatro Portátil é formada por Alexandre Boccanera, Ana Moura, Flávia Reis, Guilherme Miranda, Julia Schaeffer e Laura Collor.

 

ALEXANDRE BOCCANERA

Formado em direção teatral na Universidade do Rio de Janeiro, em dança contemporânea na Escola Angel Vianna e na London Contemporary Dance School. Foi bolsista do Programa de Bolsas Vitae de Artes. Trabalhou com importantes diretores do teatro brasileiro como Luis Antônio Martinez Correa, Bia Lessa, Moacir Chaves e João Falcão. É fundador e diretor da Cia Teatro Portátil, dirigiu os espetáculos “2 Números”, “As Coisas” e “Valsa Nº 6”.

 

FICHA TÉCNICA:

Texto: Nelson Rodrigues

Direção: Alexandre Boccanera

Elenco: Ana Moura, Anderson Cunha, Cláudio Gardin, Elisa Pinheiro, Guilherme Miranda, Julia Schaeffer, Laura de Castro, Marcello Escorel, Márcio Freitas e Morena Cattoni.

Co-direção: Duda Maia

Direção Musical e Trilha Sonora: Guilherme Miranda

Cenografia: Mina Quental

Figurino: Patricia Muniz

Filmes de Animação: Beatriz Carvalho e Diogo Nii Cavalcanti

Iluminação: Aurélio de Simoni

Preparação Corporal e Direção de Movimento: Joana Ribeiro e Marito Olsson-Forsberg

Preparação Vocal: Ana Frota

Assistente de Direção: Márcio Freitas

Realização: Cia Teatro Portátil

Produção: Boccanera Produções Artísticas

Produção Executiva: Alessandra Azevedo

 

SERVIÇO:

Espetáculo: Bonitinha, mas Ordinária.

Local: Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro) –

Teatro III

Telefone para informações: (21) 3808-2020.

Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia).

Estreia: 21 de janeiro, às 19h30

Temporada: 21 de janeiro a 1º de março

Horários: de quarta a domingo, às 19h30.

Capacidade: 40 pessoas.

Classificação etária: 16 anos.

Duração: 75 min.

Gênero: Tragédia Carioca

Por onde anda Emmanuel Cavalcante, o Cavaca, um contador de histórias?

Emmanuel Cavalcante – O Cavaca

Por Jota Junior

Faz uns 3 anos que tive o prazer de entrevistá-lo nas dependências do Centro Técnico Audiovisual – CTAv. Na ocasião, numa conversa de em torno de 2 horas, momento em que ele também finalizava o seu filme: Edvaldo Gato – Artista Plástico da Bahia, visitamos algumas das dependências do Centro, entre elas: a sala de animação, a sala de trucagens, e terminamos a conversa no estúdio de mixagem. Cavaca de forma bastante eufórica e entusiástica falava de tudo, mas principalmente de cinema, de política, de cultura de um modo geral e do Brasil.

Dono de um invejável currículo de prestação de serviços a nação, através de suas muitas facetas, é difícil entender porque o Brasil não o homenageia como ele merece.

Veja a síntese da conversa e tire suas próprias conclusões!

Haja Fôlego!

Emmanuel Cavalcante, mais conhecido como Cavaca, aos 72 anos de idade e 42 de profissão, já perdeu as contas em quantos filmes atuou. Conta com orgulho suas atuações em Bye Bye Brasil (1979), Quilombo (1984), ambos dirigidos por Cacá Diegues; Amuleto de Ogum (1974), Tenda dos Milagres (1977), do diretor Nelson Pereira dos Santos; Terra em Transe (1967), O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha, entre muitas outras atuações, em filmes de curtas, médias e longas metragens que participou, seja como ator, diretor, assistente, roteirista, etc. Atuou no teatro na época das grandes companhias. Como compositor foi parceiro de Alceu Valença no Romance da Moreninha, escreveu livros, fez poesias, e ainda quer fazer muito mais!

“Um contador de histórias”

O animado Cavaca fala de sua atuação no cinema, no teatro, na música, na literatura, que no fundo são veículos de se contar histórias. Ele se acha um verdadeiro contador de histórias, um homem de conversa, que sabe incorporar um personagem, contar, narrar. Do apelido Cavaca, diz: “Ah! Isto aconteceu, quando eu comecei a filmar muitos documentários lá na Bahia, e surgiu isso da Turma do Siri, o Agnaldo Azevedo, onde tinha o Gato, o Ângelo, o Waguinho, o Jeová de Carvalho, falecido Pastore. Na Bahia ninguém sai imune de um apelido”, assegura.

O emociona falar sobre ter trabalhado com Glauber Rocha, que segundo ele é um dos nossos cineastas de reconhecimento internacional, que estaria fazendo setenta e um anos agora. “Primeiro foi Terra em Transe, que pra mim é um dos maiores filmes da história do cinema brasileiro. Terra em Transe é o maior filme político, é uma avaliação do pensamento político dentro da linguagem do cinema. É o maior de todos. É uma pulsação emocional e filosófica sobre o que o povo brasileiro vem passando desde o início da implantação civilizatória”, diz.

“O Dragão da Maldade é o pulo do gato de Glauber Rocha. Glauber fez Deus e o Diabo na Terra do Sol que foi o maior sucesso do cinema brasileiro no mundo. É o filme mais conhecido mundialmente de todo cinema realizado aqui na América do Sul, no Brasil”, afirma. “Glauber trouxe o Antonio das Mortes para uma nova leitura dentro do pensamento político. Ele mudou por completo no Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, a forma de narrar. Ele utilizou o teatro popular, o candomblé, e acima de tudo a dança negra. O filme é um sincretismo completo”, afirma.

A fotografia no cinema.

Com relação á fotografia no cinema, cita o renomado ator e cineasta Zózimo Bulbul, que por diversas oportunidades, disse que o cinema mundial não conseguiu evoluir a questão da luz na fotografia, principalmente para o ator negro. “A questão do confronto da sombra com uma luz mais intensa dá sempre um problema muito pouco resolvido. Nos estúdios americanos os atores negros, os galãs negros são muito bem trabalhados e há o equilíbrio de luz para você nivelar a luz com a sombra. O Zózimo está coberto de razão”, afirma. “Eu filmei com o Zózimo vários filmes, e o Zózimo ficava revoltado”, assegura. “Mas o fotógrafo vai me deixar aqui invisível?”, perguntava.

“Então, o José Medeiros fazia a medição da luz em torno do negro, que é o correto, a luz batia no negro, não estourava lá no fundo e ficava muito bonito. Se você parte da sombra para a luz, tem que valorizar a sombra. Este achado foi feito aqui no Brasil por Hélio Silva. O Edgard Brasil também começou a fazer isto, mas quem depurou isto de uma forma gigantesca, que chegou á linguagem perfeita foi o Zé Medeiros” explica.

O audiovisual e o cinema digital.

Em sua larga vivência no cinema, da película ao digital, Cavaca vivenciou o processo e com a autoridade da vivência, constata: “o campo é difícil de ser equacionado por causa das compreensões. O resultado da película é inigualável. Mas a necessidade tecnológica, o avanço, foi um grande benefício. Eu que fui um homem do celulóide, fui convencido que a tecnologia está se aproximando dos resultados do celulóide, mas não chegamos a isso ainda, é difícil, é uma transição, como foi do cinema mudo para o cinema sonoro, do preto e branco para o colorido… São processos que vão se aperfeiçoando. Então, a tecnologia não é um resultado imediato, é um processo constante”, defende.

Edvaldo Gato – Artista Plástico da Bahia

“Estou bastante esperançoso com relação ao meu novo filme: Edvaldo Gato – Artista Plástico da Bahia. É um filme experimental, maravilhoso. Gato é um dos maiores artista plástico do nosso povo, é xilógrafo, ilustrador de livros, é carnavalesco, é tapeceiro, é um homem de sete instrumentos na arte. Então, o filme é abrangencial sobre a alma de um artista até onde ela pode se estender”, argumenta.

É uma vergonha!

Refletindo sobre a cultura no Brasil, Cavaca é enfático, e afirma ser uma vergonha o tratamento dado á Cultura e o orçamento pífio do Ministério.

“É preocupante e vergonhoso, a Cultura no Brasil: as autoridades, os mandatários viraram as costas para a cultura do povo brasileiro. Nossas necessidades culturais são muito grandes: feijão, arroz, carne, frango, sapato, roupa e instrução, tudo é necessário, e a cultura é um complemento dessa alimentação orgânica, é a necessidade da alimentação espiritual e intelectual. Como é que um Ministério de Cultura vive á deriva? Como é que o Ministério da Cultura só tem direito a 1% do PIB? Isso é um crime, porque é a demonstração de que os Governos, todos os governos implantados no Brasil, não têm qualquer interesse pelo grande veiculo cultural. Ninguém sabe, mas eu desconfio que isto seja um projeto político externo para fazer com que o povo brasileiro não tenha uma subida muito grande na sua própria expressão. Nós somos um mercado ocupado culturalmente, mais do que nunca a lixeira mundial é despejada aqui, sem que nós tenhamos recursos para contrabalançar isto, fazer uma competição por igual” argumenta.

“Está faltando conscientização”

“Eu considero este momento muito triste, por que foi feita a desmobilização. Pra gente redemocratizar o país nós trabalhamos imensamente a conscientização. A população brasileira foi mobilizada para um projeto democrático, havia todo um programa do que ia ser esta democratização em todo território nacional, e as discussões nos sindicatos, nas próprias casas, nas repartições. A sociedade brasileira tomou conhecimento que devia participar de um novo momento para as suas vidas. Ai o que aconteceu? Vitoriosa a questão, veio um desmonte, devagar, muito malandro, muito safado. Fosse naquela época onde havia uma mobilização, um interesse coletivo, teria milhões de pessoas nas ruas do Brasil, exigindo uma tomada de posição. Mesma coisa que se faltasse feijão no supermercado e arroz, todo mundo ia dizer quero comer, quero comer, quero comer, e alguém ia ter que plantar e trazer comida” conclui.

 A entrevista foi realizada em março de 2009.